Por Rodrigo Pomba

Você já sentiu que, por mais que tente acompanhar as notícias, a política parece um jogo jogado em uma sala fechada onde não fomos convidados? Se a resposta for sim, saiba que você não está sozinho. Há exatos 101 anos, um pensador chamado Walter Lippmann escreveu sobre algo que ele chamou de “O Público Fantasma”.
A ideia de Lippmann é simples, embora um pouco desconfortável: ele dizia que o “eleitor que sabe de tudo” não passa de um mito. Segundo ele, o mundo moderno ficou tão complexo — com leis de impostos difíceis, orçamentos municipais cheios de siglas e regras técnicas — que é impossível para qualquer pessoa comum estar cem por cento informada sobre tudo.
O Espectador na calçada
Imagine que a administração pública é uma grande engrenagem dentro de uma fábrica. O cidadão, no dia a dia, está do lado de fora, na calçada. Ele só percebe que algo está errado quando a fumaça da fábrica começa a incomodar ou quando o produto que ele usa para de funcionar.
Lippmann chamava o povo de “espectadores”. Nós não estamos lá dentro apertando os botões (esses seriam os “atores”, como técnicos e políticos), mas somos nós que sofremos as consequências. O problema é que, como não vemos os detalhes, muitas vezes julgamos o que acontece baseados apenas em boatos, símbolos ou no “sentimento” do momento.
O perigo dos “Estereótipos”
Como não temos tempo de ler cada processo da Prefeitura ou entender cada vírgula de uma nova lei federal, nossa mente cria atalhos. Começamos a rotular tudo: “é tudo farinha do mesmo saco”, “isso é coisa de tal partido”, ou “tal obra é só para aparecer”.
Para Lippmann, o risco é que a democracia vire um teatro de sombras, onde o público (o tal “fantasma”) só aparece de quatro em quatro anos para dizer “sim” ou “não”, sem entender exatamente o que está sendo decidido nos bastidores.
Qual é a saída?
Se Lippmann estivesse vivo hoje, ele diria que não adianta apenas “dar mais informação” se essa informação vier de forma confusa. O que precisamos é de transparência real: especialistas e jornalistas que consigam traduzir o “juridiquês” e o “economês” para a língua que a gente fala na fila do pão.
A política não deveria ser um fantasma que só nos assombra em época de eleição. Entender que o mundo é complexo é o primeiro passo para cobrarmos que a gestão pública seja, acima de tudo, clara.
Afinal, uma cidade só funciona de verdade quando o cidadão deixa de ser apenas um espectador na calçada e passa a entender, de fato, o que acontece dentro da fábrica.
*Rodrigo Elias Pinto é advogado, com pós-graduação em Direito Público, Gestão Pública, Contabilidade Pública e Responsabilidade Fiscal, Comunicação Eleitoral e Marketing Político, Direito do Consumidor e Direito Civil e Processo Civil. Foi vereador em Anhembi por quatro mandatos e, por duas vezes, presidente da Câmara Municipal. Atualmente é assessor parlamentar da Câmara Municipal de Anhembi.