Anhembi: DE OLHO NOS FATOS! – Sobre homens e lobos

*Por Rodrigo Pomba

Há dois ditados populares que, embora antigos, parecem ter sido moldados sob medida para explicar certos comportamentos recorrentes na política regional: “santo de casa não faz milagre” e “lobo em pele de cordeiro”. Ambos, quando analisados em conjunto, revelam muito sobre como lideranças são construídas e, às vezes, como são equivocadamente escolhidas.

O primeiro ditado reflete uma tendência humana: a dificuldade de reconhecer o valor de quem está próximo. Na política local, isso se traduz na desvalorização de pessoas que já demonstraram trabalho, compromisso e conhecimento da realidade da comunidade. São figuras conhecidas, acessíveis, que convivem com os desafios cotidianos e que, justamente por isso, acabam sendo vistas com naturalidade, quase como parte da paisagem.

Em contrapartida, surge o fascínio pelo novo personagem. Alguém com discurso ensaiado, aparência bem construída e promessas sedutoras. A novidade cria expectativa, e o desconhecido passa a ser confundido com renovação. A fala agradável, muitas vezes desconectada de histórico concreto, ganha espaço e atenção. O eleitor, cansado de problemas antigos, se apega à esperança de soluções rápidas, ainda que baseadas apenas em palavras.

É nesse ponto que o segundo ditado entra em cena: o “lobo em pele de cordeiro”. Nem todo discurso suave carrega boas intenções. Há quem se apresente como salvador, defensor dos mais frágeis, porta-voz da moralidade, mas que, nos bastidores, esteja motivado apenas por interesses próprios e dos seus próximos. A imagem cuidadosamente construída funciona como disfarce, enquanto a prática política revela outra realidade.

O risco dessa combinação é evidente. Ao desacreditar quem já demonstrou compromisso e ao supervalorizar quem apenas promete, abre-se espaço para decepções. O eleitor troca a experiência pelo marketing, o histórico pela retórica, o concreto pela ilusão. E, quando percebe, o “milagre” esperado não acontece pois, na verdade, o “santo” foi ignorado, e o “milagre” não passava de fantasia do “lobo”.

A maturidade política passa, necessariamente, pela análise crítica. Não se trata de rejeitar o novo, mas de avaliá-lo com o mesmo rigor aplicado aos conhecidos. Histórico, coerência, postura e resultados precisam pesar mais que discursos bem articulados. A política ganha quando o eleitor aprende a valorizar quem trabalha de forma consistente e a desconfiar de soluções fáceis demais.

No fim, os dois ditados se complementam como alerta: nem sempre o distante é melhor, e nem todo semblante dócil revela boas intenções. Entre milagres não reconhecidos e disfarces bem montados, cabe ao cidadão exercer o olhar atento. Afinal, escolher com consciência é o primeiro passo para evitar que a esperança seja novamente enganada.

*Rodrigo Elias Pinto é advogado, com pós-graduação em Direito Público, Gestão Pública, Contabilidade Pública e Responsabilidade Fiscal, Comunicação Eleitoral e Marketing Político, Direito do Consumidor e Direito Civil e Processo Civil. Foi vereador em Anhembi por quatro mandatos e, por duas vezes, presidente da Câmara Municipal. Atualmente é assessor parlamentar da Câmara Municipal de Anhembi.

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